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As palavras são preciosas. Vamos desperdiçar palavras.

segunda-feira, julho 18, 2005

Operação “Pânico e terror”

Miguel Portas

Só esta semana vi o documentário de Diana Andringa sobre o arrastão que nunca existiu. Não eram 500 nem 400, não eram 50 nem 60, teriam sido 20 ou 30 putos que desataram a correr – e com eles muitos outros – mal a polícia desceu às areias para pôr na ordem o que não estava em desordem. Não houve centenas nem dezenas de assaltos. Não houve, sequer, três queixas por furto. Houve uma. Se é que há. Contudo, houve dois crimes: a mentira e a sua amplificação mediática. Ambas fizeram de um incidente um acidente social. Azar dos putos serem pretos. E se além de pretos fossem muçulmanos, a coisa ainda acabava em conversa sobre terroristas. Assim foi só contra “os marginais”...



«Aprendi alguma coisa», confessou a certo passo Oliveira Pereira, o comandante metropolitano da PSP. Não é vulgar um chefe de polícia dar a mão à palmatória, assumir falhas de subordinados no terreno e dizer que confiou nas fontes jornalísticas que teriam estado na origem do comunicado policial. Apertado pelo Expresso, o comandante acabaria por se demarcar do “aproveitamento político” das suas declarações. Aí engana­‑se. A democracia é uma jornalista procurar a verdade onde os grandes meios creditaram a mentira; um polícia orgulhoso da transparência na relação com os seus cidadãos; um site especificamente criado para divulgar a investigação; e também a posição de partidos, activistas e personalidades sobre os factos em questão. O que faltou foi uma comunicação social capaz de olhar para si. Os cinco minutos iniciais do documentário são demolidores. Sempre o mesmo entrevistado, as mesmas fotografias e zero, zero mesmo, de investigação. Só A Capital escapou a esta vergonha profissional. “Não houve arrastão, mas podia ter havido e acabará por haver se não se tomarem medidas”. Ninguém escreveu, mas escrever-se-á. Porque a melhor mentira é a que mergulha no senso comum.



O País tem desesperados a mais. Eles nunca pensam com a cabeça, mas ao pontapé. Descobrem o culpado pela sua desgraça no desesperado mais próximo. Não responsabilizam a política, porque dela desesperançaram. O alvo mais imediato desta besta sem culpa ou inocência é o imigrante. De preferência preto. A sua exigência mais moderada, a “mão dura”. Aqui, o desespero casa-se com os populismos que invadem a política global.



Depois dos atentados terroristas de Londres, a presidência britânica tomou freio nos dentes. Esta semana estiveram vários ministros em Bruxelas. Barroso acompanhou “o novo consenso” que vai ultrapassar “o impasse europeu” – a prioridade antiterrorista. A Europa chega à América pela mão de Blair. Agora, até a vitória do “não” em França é explicada pela insegurança ligada aos temas da imigração...



Os reaccionários – este é o termo adequado – querem mais. «Deixem-nos pôr no lugar a nossa hierarquia de direitos», pediu Charles Clarke aos reticentes eurodeputados da Comissão de Justiça e Liberdades. Nessa “hierarquia”, o ministro inglês relega para quarto lugar o direito à privacidade, rompendo o “consenso” actual sobre a indissociabilidade das liberdades fundamentais. Em causa estão investimentos tão brutais quanto inúteis em matéria de controlo de comunicações via Net e telefone. E a ideia peregrina de um BI biométrico europeu que resolveria com dinheiro da União a ausência de BI no Reino Unido... Infelizmente, estas e outras medidas não evitam um só acto terrorista. Mas constróem a Europa do medo, intolerante com a imigração e irritada com as políticas de integração.



Eis porque é tão grave a ausência de reflexão dos profissionais de comunicação sobre o caso de Carcavelos. O local e o global articulam-se na cultura mediática de “pânico e terror”. É tramado. Porque a Europa não é Bagdad, mas querem que acreditemos nisso. Remar contra a maré, portanto. Deitei em Bruxelas uma velinha. Esta semana foi votado em comissão o meu relatório sobre a integração dos filhos dos imigrantes a partir dos sistemas educativos. Lá se diz que têm direito a frequentar as escolas independentemente da situação legal dos pais; e que a União deve co-financiar uma rede europeia entre escolas que criem turmas onde se proceda à aprendizagem com recurso a uma das línguas maternas dos filhos de imigrantes. Para lá, é óbvio, da língua do país de acolhimento e da introdução ao inglês. Porque dou notícia disto? Porque não entra nas agendas de pânico e terror. E, portanto, não é notícia...

terça-feira, julho 05, 2005


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