"arrastão"?
O Editorial de Luís Osório na Capital.
"O arrastão, afinal, não existiu. O comunicado da PSP foi precipitado, as primeiras páginas dos jornais nitidamente alarmistas, as notícias que abriram os noticiários televisivos multiplicaram os efeitos, vários comentadores falaram sobre a crescente insegurança, políticos mostraram-se consternados, e o Presidente da República não demorou a marcar uma visita ao problemático bairro da Cova da Moura. Mas a reportagem de Nuno Guedes não deixa margem para dúvidas: não houve qualquer arrastão em Carcavelos. Mais: não houve qualquer queixa registada na PSP da zona.
Estamos, ao que tudo indica, perante uma das maiores mistificações de que há memória em Portugal. Uma mistificação gerada por um racismo crescente, não só da parte dos brancos diga-se, e por um clima de insegurança que torna muito difícil imaginar o que poderá acontecer a médio prazo.
É evidente que o crescimento da área suburbana, e a sua transformação em autênticas cidades de excluídos e deserdados, provoca um efeito de "panela de pressão" que pode explodir a qualquer momento. Excluídos e deserdados, negros e não só, já estiveram mais longe do dia em que tentarão oferecer, aos que consideram privilegiados, uma prova de vida. Basta entrar num bairro problemático e ouvir os poemas ditos de improviso pelos jovens rappers; miúdos com menos de 20 anos que, assumindo-se como escravos, esperam e cantam pelo dia da libertação.
Ao mesmo tempo, nas cidades não suburbanas, a maioria de nós deseja que os negros, e os restantes excluídos, nunca abandonem os "buracos" onde vivem.
A maioria de nós, mesmo os que até defendem a coabitação racial, desejam o seu mundo livre de problemas e angústias. Crescem exponencialmente os que, sem qualquer dúvida metódica, pedem a expulsão dos não nascidos em Portugal e até dos que, nascendo cá, têm a cor negra.
Aqueles miúdos elevados à categoria de criminosos organizados - ontem o deputado Nuno Melo foi muito claro na sua declaração - foram os primeiros, pelo menos em tão larga escala, a pagar o preço por serem negros e, como tal, indesejáveis.
O comunicado da polícia foi precipitado porque feito a quente por alguém que não duvidou de que eles pudessem ter feito aquilo. As primeiras páginas dos jornais foram alarmistas porque todos foram atrás de todos. Os noticiários televisivos transformaram as imagens que não tinham em relatos virtuais, os comentadores e políticos não procuraram investigar, e Jorge Sampaio, e muito bem, marcou uma visita à Cova da Moura porque fez fé de que tudo era verdade.
Só que tudo isto não aconteceu da forma como foi contado. Tudo isto aconteceu porque há cada vez menos pessoas a questionarem-se sobre as coisas, porque há cada vez mais pessoas a olhar para a realidade como uma verdade adquirida e não problematizável. Aconteceu também porque a maioria de nós, e não me estou a excluir totalmente, é racista. Mesmo quando está convencida do contrário. Se não o fôssemos, chegaríamos facilmente à conclusão de que um arrastão é feito por 40 ou 50 pessoas no máximo, não por 400 ou 500. "Assina,
Luís Osório
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